quarta-feira, 2 de julho de 2008

Homens de grossa ventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). João Luís Ribeiro Fragoso.

Segundo o texto, Caio Prado foi responsável pela possibilidade de se entender o sentido da colonização por meio da economia européia e pela impossibilidade de formação de um mercado interno com alguma relevância. A estrutura geral que marcaria, portanto, o mercado colonial foi o sistema plantation de grandes propriedades, monocultura e trabalho escravo. A existência desse sistema impossibilitaria assim a necessidade de um mercado interno, uma vez que esse sistema é caracterizado pelo auto-abastecimento.

Celso Furtado, que continua a tradição de Caio Prado, também se posicionava contra a idéia de existência de um mercado interno na colônia que não seria, portanto, autônoma. O autor adiciona ainda a redução de Portugal a mero entreposto da economia inglesa e desenvolve aspectos do mercado interno colonial, como sua divisão do trabalho não baseada na escravidão e sua regularidade frente às fases negativas do mercado. O mercado interno dependeria sim do sistema plantation, o qual abastecia.

Um autor que surge para integrar de forma mais sistemática o Antigo Sistema Colonial, o mercado internacional e o mercado interno, é Fernando Morais. Referências como “relações centro/periferia” servem de base, em sua historiografia, para a montagem do contexto histórico. O pacto colonial seria, para esse historiador, uma expressão do capitalismo comercial que, ao mesmo tempo, apresentava características típicas de uma metrópole não industrializada: cujos resultados do acúmulo de capital se deram por transferência das vantagens inglesas. A escravidão colonial permitiria a promoção dessa acumulação – já que os recursos coloniais não eram gastos com o trabalho livre – ao mesmo tempo em que dava fôlego ao comércio (o tráfico). O fim do pacto colonial ocorre com a vinda da família real para o Brasil, com a abertura dos portos para nações aliadas.

Outro historiador de destaque foi Ciro Cardoso, que, tendo como ênfase estruturas coloniais que não sofriam impacto direito do mercado internacional e das metrópoles, critica os modelos criados por Caio Prado Junior. A dinâmica do período colonial seria mais complexa, pois encontra fatores de sinergia entre a dependência e a presença de formações com contradições internas. Além disso, ele critica o “sentido da colonização” porque segundo essa teoria, a colônia não teria meios de reprodução próprios e estaria totalmente vinculada a fatores externas. Desconsidera, portanto, que a produção local de mercadorias cria novas objetividades com tendências à reprodução.

José Jobson Arruda e João Manuel Cardoso são outras referências que vem reforçar a antiga vertente: acham que colônia é desprovida de lógica própria, sendo a condição necessária para o desenvolvimento do capitalismo atual. Mas, por outro lado, pesquisas feitas por Roberto Martins mostram outra faceta da economia colonial, dotada de lógicas próprias de produção e reprodução. Fragoso insere-se nesse segundo grupo e estuda o mercado interno colonial.

Segundo o autor do texto em questão, a ênfase no aspecto macroeconômico do período colonial poderia muitas vezes atrapalhar a compreensão de outros processos presentes na época. Além disso, repensa a questão da acumulação primitiva e da transição para o capitalismo, retomando a perspectiva da posição de Portugal com relação a esses aspectos. Portanto, a metrópole lusitana, segundo Fragoso, utiliza a expansão marítima para sustentar uma economia incapaz por si só de sustentar sua reprodução.

Por fim, vê-se que novos estudos estão surgindo para a análise das relações entre metrópole e colônia, no sentido de atualização de suas categorias. Desse ponto de vista, os fundos retirados das colônias não serviriam para acumulação primitiva de capital, mas sim para manter as estruturas já existentes. Assim, a história passa a ser vista não retrospectivamente – fatos passados legitimando ocorrências posteriores – mas sim em consideração à sua lógica interna.

Escravidão e Abolição no Brasil: Novas Perspectivas. Ciro Flamarion Cardoso.

Capítulo 2: A abolição como problema histórico e historiográfico.

p. 74

Este capítulo tem a intenção de analisar alguns dos caminhos trilhados pela pesquisa histórica sobre a abolição brasileira desde 1960, aproximadamente.

...a explicação das causas ou determinações se apresenta com freqüência, em história, como uma referência, muito imprecisa quanto à sua forma lógica, a séries de “condições favoráveis” sem hierarquização interna – ou seja, a uma lista ou justaposição de fatores, em lugar de formas explicativas mais rigorosas, como seriam: a indicação de condições necessárias, ou suficientes, ou que fossem ao mesmo tempo necessárias e suficientes; ou ainda, de uma condição suficiente que, em dada circunstância, se tornasse necessária.

Abolicionismo e abolição

p. 75

A apreciação do vínculo entre abolicionismo e abolição variou, nos textos produzidos durante o período examinado, da consideração do movimento abolicionista como um epifenômeno (ou pouco mais que isto), num processo de abolição que obedecia a uma lógica estrutural (...), até a afirmação peremptória de que, pelo contrário, o confronto violento de um escravo ainda forte com um movimento abolicionista vigoroso foi essencial para a destruição do primeiro.

Uma tendência central nos estudos que concederam um peso explicativo e uma atenção consideráveis ao abolicionismo como fator da abolição foi a de enfatizar o caráter urbano do movimento.

Emília V. da Costa (...) chama a atenção para a confluência, no sentido do fim do trabalho escravo, de um bloco de interesses agrários paulistas e de um abolicionismo urbano que se difundiu entre grupos profissionais que cresciam nas cidades em expansão.

p. 76

Richard Graham (...): os abolicionistas se dirigiram às necessidades de novos grupos urbanos que emergiam no Rio e em São Paulo, sobretudo após a Guerra do Paraguai. Estes grupos urbanos (oficiais militares, engenheiros, industriais) adotaram uma visão moderna e progressista do mundo, cuja vitória no Brasil era dificultada pela escravidão.

Mais recentemente, Suely R. de Queiróz, embora aceitando a essência urbana do abolicionismo, pretende negar-lhe qualquer conteúdo de classe ou partidário, ou mesmo um sentido de oposição entre interesses urbanos e rurais.

P. 77

R. Bergstresser (...) atribui o florescimento do abolicionismo ao ressentimento urbano contra um governo imperial dominado pelos interesses agrários.

p. 78

Jaime Reis (...) mostra que a forma tradicional de avaliar o impacto do abolicionismo... qualitativa por excelência, não basta para solucionar a questão. (...) Para resolvê-la, ele propõe um enfoque quantitativo, que consiste em considerar o abolicionismo como uma “variável econômica exógena” e em medir o impacto desta sobre as atitudes das pessoas diante da escravidão, tomando como indicador o comportamento do mercado de escravos.

p. 79

Luta de classes e abolição

Eugene Genovese apresenta a originalidade de ter abordado sucessivamente esta questão privilegiando, primeiro, a classe dominante escravista e, em outra obra, a ação dos escravos.

p. 81

Entre os pesquisadores brasileiros, uma das posições polares a respeito da relação entre lutas de classes e abolição é a que foi assim resumida por Octavio Ianni... “Em geral, a abolição da escravatura foi um negócio de brancos”.

A outra posição polar consiste em afirmar a rebeldia negra como fator explicativo essencial da abolição, independentemente do abolicionismo “branco”. (Clóvis Moura).

p. 82

Estudando a rebeldia negra e o abolicionismo em Campos, lana Lage da Gama Lima se interessa centralmente pela análise do papel da rebeldia negra na crise final do escravismo, vendo-a em suas potencialidades mas também em suas limitações. Isto a põe contra duas afirmações opostas: a do escravo como vítima inerme e a do escravo como herói.

p. 83

Na crise final do escravismo, rupturas ocorridas no interior das classes dominantes permitiram a emergência da rebeldia das classes economicamente exploradas, incluindo os escravos. Mas o aprofundamento desta rebeldia, quando se torna um ameaçador interesses essenciais dos grupos dominantes, é interrompido, desfazendo-se então alianças eventuais e reaparecendo antigas oposições.

pp. 84-86

Celia Maria M. de Azevedo: Contra a “Escola de São Paulo” (Florestan Fernandes e discípulos). Passando a explicitar sua própria opção teórica, a autora, ... baseia-se em Cronelius Castoriadis para propor uma valorização das lutas implícitas, das “pequenas lutas disseminadas pelo cotidiano, não organizadas num todo coerente e dotado de ideário próprio”, com freqüência reprimidas e derrotadas, por tal razão deixadas de lado pela produção historiográfica, mesmo quando existem fontes disponíveis para a sua análise.

p. 89

críticas metodológicas ... a todas as tentativas de ressaltar o laço causal entre rebeldia negra e abolição. Uma delas tem a ver com o paroquialismo que consiste em ignorar, no debate desta questão, estudos numerosos e muito ricos... já realizados acerca do mesmo tema no Sul dos Estados Unidos, no Caribe e na América Espanhola. A outra é que, estando a rebeldia negra presente desde o início da escravidão de africanos e sendo, assim, traço estrutural da própria sociedade escravista, a demonstração de que possa ter tido um peso específico considerável no processo da abolição teria por força de seguir um de dois caminhos:

1) provar uma incidência quantitativamente maior de movimentos em 1850-1888, ou alternativamente, diferenças radicais no caráter desses movimentos;

2) ou mostrar como, nas novas condições inauguradas com a abolição do tráfico africano em 1850, mesmo uma incidência similar à do passado teria um peso maior na fragilização e crise do sistema escravista e, portanto, em sua superação.

p. 90

Imigrantismo e abolição

A disponibilidade de imigrantes, em um contexto de crescente escassez de mão-de-obra para o café, é elemento importante no livro de Emília V. da Costa sobre São Paulo. O imigrantismo como explicação de primeiro plano da abolição é mais típico, entretanto, dos escritos da cientista política Paula Beiguelman.

p. 91

“a orientação imigrantista do setor de vanguarda” provocou “uma crise fundamental dentro do escravismo”; ao mesmo tempo que promoveu, também limitou o abolicionismo em suas possibilidades transformadoras.

Paula Beiguelman acha que a superação do trabalho escravo pelo imigrante significou a passagem ao trabalho livre, assalariado. A originalidade do sociólogo José de Souza Martins consistiu em apresentar outra interpretação...

p. 93

Imaginário e abolição

Duas obras publicadas em 1987 inauguram, nos estudos brasileiros sobre a escravidão e a abolição no século XIX, um tipo de análise que... preocupa-se de forma prioritária com a dimensão do imaginário, das representações.

Lilian Moritz Schwarcz, apoiando-se em boa parte na antropologia e empreendendo uma análise de jornais paulistas do século passado, ocupou-se centralmente com o estudo de representações que conduzem à emergência da temática racial no final daquele século (...).

p. 96

Outra obra que interessa abordar aqui é a de Célia Maria Marinho de Azevedo (...). Ela escolhe como objeto principal o medo, em um estudo da transição do trabalho escravo ao livre em São Paulo no século XIX.

pp. 96-97

A hipótese central do livro decorre da seguinte pergunta: até que ponto a imagem de negros e mestiços como uma massa inerte, desagregada, inculta, sem grande importância histórica em fins do século XIX... não surgiu do âmago de todo um imaginário racista que procuraria com isso justificar a necessidade de trazer imigrantes europeus em substituição aos escravos?

p. 99

Estruturas econômico-sociais e abolição

Nos estudos de que agora falaremos, um dos riscos maiores é exatamente o oposto do que apontávamos... o de enfatizar de tal maneira as determinações estruturais, que a abolição pareça decorrer natural e automaticamente do peso crescente das contradições inerentes ao sistema escravista no século passado.

pp. 101-102

...é o esquema de Eric Williams que provê a explicação da abolição (mesmo se o processo abolicionista não é, em si, analisado), no bojo da “crise do colonialismo mercantilista”: “ao funcionar plenamente”, aquele sistema “vai criando ao mesmo tempo as condições de sua crise e superação”.

p. 102-103

Conclusões

1) O período abordado viu um desenvolvimento decisivo da profissionalização dos cientistas sociais e historiadores em nosso país (...).

Nota-se que se tornaram bem menos freqüentes do que no passado as obras de intenção meramente descritiva, avessa aos debates teóricos e às interpretações.

pp.104-105

Do ponto de vista da evolução futura da historiografia brasileira... toda a questão reside em saber:

1) até que ponto a mencionada ruptura é de fato algo tão radical, destinado mesmo a inaugurar uma nova era...

2) se, pelo contrário, será possível, na prática da pesquisa, chegar a considerar que a “hermenêutica e a analítica não representam contradições, mas apenas abordagens metodológicas que exploram áreas complementares da experiência histórica”.

2) Do ponto de vista metodológico, no período pós-1960 se confirmou, quanto à pesquisa da escravidão e da abolição, uma tendência muito positiva aos estudos regionais, já presente no início do período estudado, reforçada depois pela multiplicação dos cursos de pós-graduação. Em contraste, o estudo comparativo... teve, infelizmente, pouco desenvolvimento entre nós.

Um Contraponto Baiano. B. J. Barickman.

Nesse texto, Barickman resgata Ortiz com sua historiografia sobre a multiplicidade de uma economia predominantemente baseado no trabalho escravo e no plantation. Geralmente, segundo esses historiadores, deixa-se de lado a vida local dos senhores de engenho, consumidores, lavradores e escravos, e o aspecto que liga a todos aos mercados internos e externos.

O foco do estudo é o Recôncavo e outras regiões do Nordeste no período colonial e no século XIX. A maioria dos estudos aponta para a impossibilidade de desenvolvimento do mercado interno nessa região em decorrência da sua estrutura. Entretanto, o trabalho em questão aponta para a demanda intensa de farinha por parte dos senhores de engenho e lavradores de cana para alimentação dos cativos. Quando o mercado externo supria a oferta de cana dos grandes engenhos, então este passava a depender do mercado interno para a reprodução dos que trabalhavam nos canaviais. Dessa maneira, o mercado local era indispensável em uma região dominada pela agricultura de exportação.

Ao contrário da suposição de muitos estudos de que a escravidão, por não gerar renda para os consumidores (como ocorre com os trabalhadores livres), não encaixaria num cenário com mercado interno, não é o que se verifica na região baiana. Foi com o intuito de reproduzir o trabalho escravo em suas propriedades que grandes senhores, médio e pequenos proprietários, passaram a alimentar a produção local.

Importante notar que mesmo com decadência do comércio açucareiro, o de mandioca continuou a funcionar; e, mais do que estar exposto às flutuações internacionais, encontrava-se diretamente ligado aos períodos chuvosos e de seca – ao contrário do que afirma a escola paulista.

Outra idéia que deve ser reconstruída, segundo o autor, é a de que o domínio da posse das terras estava exclusivamente nas mãos do senhor de engenho. Segundo ele, as fronteiras agrícolas da época eram abertas e indefinidas e foi essa oferta de terra que permitiu o crescimento do comércio tanto de gêneros para exportação quanto para consumo local. Além disso, há a comprovação de que mesmo dentro da agricultura para exportação, havia alternativa para o plantation, um exemplo seria o cultivo de fumo. Este se diferenciaria radicalmente do cultivo de cana, tanto no uso da terra e de mão-de-obra quanto na utilização de determinadas técnicas agrícolas. Por outro lado, esse tipo de cultura também não era familiar e nem sempre era praticada por agricultores livres.

Conclui, portanto, que o desafio atual seria investigar e analisar as produções e relações do mercado interno e externo, juntamente com o trabalho escravo, em diversas regiões do Brasil. Chamando, portanto, um estudo que não seja reducionista como tradicionalmente se encontra na historiografia.

Sonhos Africanos, Vivências Ladinas. Escravos e forros em São Paulo (1850-1880). Maria Cristina Cortez Wissenbach.

Apresentação – p. 9

as expressões de uma vontade de potência e de rebeldias

o sentido social do crime e da criminalidade

as funções urbanas dos escravos

Introdução

p.13

o papel histórico do negro cativo e forro foi por muito tempo desconsiderado – cidade dos imigrantes e dos imigrantes pioneiros

a figura do negro escravo sintetizou a desclassificação social: desprezava-se sua presença incômoda, disciplinavam-se suas andanças pela rua e aglomerações

Este estudo é uma tentativa de reconstruir as vidas escravas e forros no município paulista da segunda metade do século e os autos criminais analisados situam-se entre os anos de 1850 e 1880.

p. 14

Enquanto os avanços da política emancipacionista produziam figuras intermediárias entre as condições escrava e livre, a rebeldia escrava orientava, para a cidade, levas de escravos fugidos. Para um mercado de trabalho híbrido, esses tipos residuais convertiam-se em mão de obra barata...

p. 15

A comunidade negra em São Paulo não chegou a se constituir de maneira vigorosa, nem a desenvolver formas avançadas de organização do mercado de trabalho, como ocorreu em Salvador. Ao contrário, associada em torno de laços informais, invadia desordenadamente os espaços públicos e irrompia em conjunto nas práticas religiosas das irmandades de homens pretos.

A história do negro em São Paulo não pode ser entendida sem a referência explícita ao preconceito social que vincou a organização da vida escrava e forra desta época e de suas fases posteriores.

p. 16

Considerando-se que a cidade não se manteve isolada das demais áreas da província, a questão negra e escrava devem ser entendidas numa perspectiva mais ampla. Centro de negócios e residência dos proprietários rurais refletiu e incorporou a problemática social em questão.

Os escravos, forros e homens livres negros juntamente com escravos fugidos que se abrigavam na cidade e em seus entornos não eram somente tidos como desordeiros e indisciplinados, mas também considerados potencialmente perigosos.

p. 19

os crimes, juntamente com as fugas, as rebeliões, a formação de quilombos e os suicídios, traduziam simultaneamente repúdio à escravidão e busca incessante de liberdade. Aos escravos restavam unicamente meios extremos

Nessa perspectiva, a resistência escrava visava acima de tudo a destruição do regime, ou, no limite da ação individual, a negação da própria condição.

p. 20

No geral, os crimes dos escravos foram vistos, tanto pelos contemporâneos, quanto pela historiografia tradicional, mais em seus efeitos na sociedade ou naquilo que dela espelhavam de que pelo significado que tiveram para os grupos infratores.

Nas últimas décadas, avanços na historiografia social possibilitaram a construção de novos recortes analíticos e significados para o estudo do crime e das indisciplinas dos grupos dominados da sociedade.

p. 21

... a abordagem do crime como revide inerente ao estágio infantil do movimento operário

o conceito de crime social foi posteriormente explorado por historiadores como Eric Hobsbawn, em seus estudos sobre as formas de rebeldia primitiva.

p. 22

Conduzidos por percepções mais abrangentes de tempo e do espaço e rompendo com a linearidade e a unicidade dos processos históricos, a intenção dos estudiosos ligados a essa tendência é a de reconstruir partículas da vida cotidiana, a intensidade dos processos de transformação histórica que perpassavam padrões de sobrevivência e de organização sociocultural e que interagiam de maneiras multivariadas no confronto entre dominação e resistência. Dois exemplos dessa historiografia são Peter Linebaugh e Edward Thompson.

p. 24

Os avanços da historiografia social foram incorporados pela produção brasileira mais recente, nos estudos sobre a escravidão. Novas tendências nas quais os crimes despontam como categoria de interpretação histórica que, revelando múltiplas tendências envoltas no regime do trabalho escravo, devem ser avaliadas internamente à dinâmica das relações sociais

Nessa historiografia, o término da escravidão passou a ser vista na confluência de diversos fatores: a ação dos abolicionistas, a luta partidária e a participação escrava.

p. 25

Criminalidade escrava

o estudo de homicídio de senhores e feitores, de roubo de produtos agrícolas e de outras transgressões praticadas pelos escravos revelou sentidos mais amplos. Traduziam estratégias dirigidas, sobretudo, à exigência de direitos dos escravos como tais

p. 26

...cultura escrava... tem merecido atenção destacada dos estudos recentes sobre as instituições nas Américas. Orientados por perspectivas teóricas distintas, diversos trabalhos procuram desvendar o sentido maior da vida dos escravos... pautam-se pela minuciosa e paciente tarefa de reconstituição das estruturas internas que a compunham, difíceis de serem remontadas, carentes de fontes e, no geral, filtradas e deturpadas pela visão dos dominados

p. 26

Para alguns estudiosos, a cultura escrava revestiu-se primordialmente de conteúdo oposicionista às determinações provenientes do mundo dos senhores e da própria escravidão.

p. 27

Nesse sentido, a principal contribuição de Genovese foi reintegrar o conceito de resistência à dinâmica das relações sociais, reincorporando-o não como repúdio ou negação, mas como conjunto de elementos provenientes da perspectiva escrava interagindo no mundo dos senhores e no funcionamento do regime.

p. 29

Estudando a escravidão na América Central, um dos expoentes das análises sobre a cultura escrava, Sidney Mintz pode apreender estruturas coincidentes e contínuas entre a vivência dos escravos e dos libertos e entre o passado escravista e a realidade socioeconômica da Jamaica contemporânea. Ele enfatiza a importância de serem observados não somente os atos de resistência à dominação, como especialmente as estratégias adaptativas que foram sendo elaboradas e ampliadas pelos escravos no contexto aparentemente rígido do trabalho escravo.

p. 30

...a base da autonomia escrava provinha, sem dúvida, de um patrocínio senhorial e estes por sua vez, não era simples resultado de complacência dos senhores e sim necessidades a eles impostas pelo funcionamento do plantation

p. 31

Em linhas gerais, os crimes cometidos pelos escravos, analisados nesse trabalho, incidiram em direções amplas: crimes imbricados diretamente na questão escravista e de sua violência, e crimes plenamente empregados em suas vivências específicas.

p. 32

os vínculos de subordinação não eliminavam as associações horizontais

Com isso, não se pretende afirmar que aos escravos não interessava a conquista de liberdade (...) mas simplesmente enfatizar que, nas dimensões do dia-a-dia, configuram-se, aos grupos escravos, outras direções. Sobreviver... era, por vezes, exigência maior a eles imposta pelo regime da escravidão.

Antropologia Estrutural II

Capítulo I – O Campo da Antropologia

p.13 Mauss nunca se afastou da linha durkheimiana: simplificou e tornou mais flexível a doutrina do seu precursor

Durkheim colocou exigência de especificidade na ciência do homem. Não se pode questionar a natureza e a origem dos fenômenos sem antes tê-los identificado e analisado, e também descoberto em que medida as relações que ao unem basta para explicá-los. É impossível discutir a história de um objeto sem antes descobrir o que ele é, sem antes ter esgotado o inventário de suas relações internas.

p.14 Crítica a Durkheim: constitui o social em categoria independente, sem antes pensar que esta categoria comporta, por sua vez, diversas especificidades correspondentes aos diversos aspectos sob os quais nós a apreendemos. Antes de afirmar que linguagem, arte, religião são projeções do social, não esperou que se compreendesse quais as relações que estes elementos mantêm uns com os outros.

Mauss: a noção de totalidade durkheimiana é menos importante do que a maneira como ele a percebe – formada por uma multidão de planos distintos e justapostos.

Mauss e Durkheim ao invés de perceber a totalidade como um postulado (como Durkheim), ela se manifesta na experiência como instância que pode ser apreendida no nível da observação, em ocasiões específicas. Totalidade de Mauss não afeta o deixa de lado o caráter específico dos fenômenos que permanecem, ao mesmo tempo, jurídicos, econômicos, religiosos, estéticos etc. Totalidade consiste na rede de inter-relações entre todos esses planos. Atitude empírica de Mauss explica sua posição positiva com relação às pesquisas etnográficas.

Mauss e categorias inconscientes deve-se procurá-las atrás das interpretações racionalizadas dos indígenas

p.15 Posição de Mauss permite pontes com história (em função da etnografia) e com a biologia e a psicologia, uma vez que se reconhece que corpo, alam e sociedade se misturam : sociologia da carne.

Mauss protege sociologia durkheimiana tanto da desencarnação quanto do automatismo. Livrou a sociologia de ser o produto de um saque às expensas de outras áreas.

Mauss e Malinowski um como teórico e o outro como experimentador, mostraram o que pode ser a administração da prova nas ciências etnológicas. Que não é suficiente decompor e dissecar. Os fatos sociais não podem ser reduzidos a fragmentos esparsos, pois são vividos por homens e esta consciência subjetiva, bem como seus caracteres objetivos é uma forma de realidade. Um dizia que o essencial é o movimento todo, a síntese empírica e subjetiva; o outro exigia a participação do etnógrafo na vida e no pensamento dos indígenas.

p.16 Questão sujeito/objeto é necessário que a síntese decorra da experiência humana e é na intersecção de duas subjetividades que está a ordem de verdade mais próximas que as ciências humanas podem pretender quando defrontam a integralidade do seu objeto

Explicação: ciências humanas x ciências físicas

Mauss libera a antropologia dessa falsa oposição criada por Spengler e Dilthey: a procura das causas se extingue na assimilação de uma experiência, mas está, ao mesmo tempo, interna e externa. Considerar fatos sociais como coisas é primeiro procedimento, o segundo é averiguar a regra.

p.17 Originalidade da antropologia social

Ao invés de opor explicação causal e compreensão, ela descobre um objeto que seja, ao mesmo tempo, objetivamente longínquo e subjetivamente concreto, e cuja explicação causal possa se basear nesta compreensão que não é senão forma complementar de prova. Antropólogo constrói uma máquina através de um série de operações racionais, no entanto, é necessário que ela funcione, a certeza lógica não basta. Essa última satisfação empírica pode ser disponível através da possibilidade de viver a experiência íntima do outro.

p.18 O que é a antropologia social? Sistema de signos (aquilo que substitui alguma coisa para alguém) no interior da vida social. Ocupante do domínio da semiologia.

· alguns domínio da antropologia são também o de outras ciências particulares, mas estas estudam os fatos que estão mais próximos de nós

· tudo o que a antropologia estuda são signos? Porque a pergunta que nos fazemos quando estudamos outra sociedade é “o que tudo isso significa” e, para respondê-la tentamos traduzir lembrar de Winch em nossa língua regras primitivamente dadas em uma linguagem diferente. Mas e outros aspectos da realidade social como técnicas, modos de produção e consumo? Estes seriam objetos, e não signos.

Antropologia Cultura aparece então para distinguir essa parte dos estudos, porque os domínios acima citados estão impregnados de significação. Técnicas isoladamente são dado bruto, mas quando a situamos no inventário geral das sociedades, passam a ser equivalentes de escolhas que cada sociedade parece fazer entre as opções possíveis, cujo quadro será traçado.

p.19 Objeto é um signo no sentido em que, num determinado contexto, ele ocupa o lugar para o observador capaz de compreender-lhe o uso, da ferramenta diferente que uma outra sociedade empregaria para os mesmos fins.

Antropologia Social coloca a natureza simbólica do seu objeto porque o trata enquanto signo, mas nem por isso deixa de se afastar das realia. Isso ocorre porque se utiliza meios materiais (imagens, objetos, substâncias) para construir um símbolo (arte,deuses,rituais, regras sociais). Não há separação entre cultura material e cultura espiritual.

Homens se comunicam por meio de signos e símbolos, para a antropologia – que é conversa do homem com o homem – tudo são símbolo e signo que se colocam como intermediários entre dois sujeitos.

Radcliffe-Brown se afasta de Lévy-Strauss na medida em que pensava que a antropologia social seria uma ciência indutiva que observa fatos, formula hipóteses, submete-as ao controle da experiência, para descobrir as leis gerais da natureza e da sociedade. Para isso, meios e métodos da etnologia, que tenta reconstituir o passado, seriam muito precários para tal objetivo.

p.20 Deve-se imaginas a antropologia social não como ciências indutivas do século XIX , mas como uma sistemática cujo objetivo é identificar e repertoriar tipos, analisar suas partes constitutivas, estabelecer correlações. Sem este trabalho preliminar, o método comparativo preconizado por Radcliffe-Brown, incorre em estagnação.

p.21 É necessário abordarmos fatos históricos antes de procedermos a qualquer classificação ou comparação. Ignoraremos que as coordenadas necessárias para definir dois fenômenos aparentemente muito semelhantes, não são sempre as mesmas, nem de mesmo número. Não levar em conta a história significa contentar-se com uma sociologia onde fenômenos estão descolados de seu suporte.

Espinas formações desprovidas de raízes biológicas não possuem o mesmo coeficiente de realidade que as outras. Outras ciências, segundo Lévi-Strauss, podem estudar essas formações, mas é isso que as diferencia da antropologia social.

p.22 Continuidade cronológica e espacial entre a ordem da natureza e a ordem da cultura, que tanto Espinas quanto Boas insistiram. Pois, mesmo se os fenômenos sociais devam ser provisoriamente isolados do resto e tratado como se pertencessem a um nível específico, sabemos que a emergência da cultura permanecerá um mistério até que se saiba que determinações biológicas modificaram estrutura e funcionamento do cérebro. Destas transformações, a cultura representa simultaneamente resultado natural e modo social de apreensão.

p.22 Em antropologia a experimentação procede a observação e a hipótese – cada sociedade é uma experiência pronta e elas não são governáveis.

p.23 Alternância de ritmo entre dois métodos: dedutivo e indutivo. Alternância entre teoria e observação

Antropologia faz da subjetividade mais íntima um meio de demonstração objetiva: o mesmo espírito que se abandonou à experiência e deixou-se modelar por ela se torna teatro de operações mentais que não abolem as precedentes e, entretanto, transformam a experiência em modelo, possibilitando outras operações mentais.

p.24 Cours de Linguistique générale: oposição absoluta entre duas categorias de fatos – gramática, o sincrônico, o consciente e fonética, diacrônico, o inconsciente.

sincrônico – gramatical – coletivo – fala

diacrônico – fonético – individual – língua

Radcliffe-Brown e Saussure: estruturas são da ordem da observação empírica (entretanto, para Lévi-Strauss, ela se situa além). Conclusões opostas: um afirma a estrutura vendo-a onde ela não está e outro a nega se ela não for diretamente dada.

Antropologia: sincrônico pode ser tão inconsciente quanto o diacrônico, o que diminui a diferença entre dois planos

Marx: diacrônico também pode estar no coletivo

Freud: gramatical pode dar-se no interior do individual

p.25 Crítica Radcliffe-Brown e Cours: nenhum percebeu que a história dos sistemas de signos engloba evoluções lógicas, reportando-se a níveis de estruturação diferentes que é preciso isolar.

Sistema consciente resulta de “média dialética” entre uma multiplicidade de sistemas inconscientes, dos quais, a cada um concerne um aspecto ou um nível de realidade social.

Sistemas inconscientes não coincidem em sua estrutura lógica nem aderência histórica. Estão como que difratados sobre uma dimensão temporal cuja espessura dá à sincronia sua consistência. pq espessura temporal, me pergunto se tem a ver com o fato de que o tempo de que ele fala é duração, um acúmulo do passado no presente, por isso ele é espesso

Fatos da estrutura e fatos funcionais: diferença é apenas de grau. Estrutura está no porvir, se forma e decompõe incessantemente. Vida chegada a um grau de consolidação, mas não se pode, entretanto, querer separá-la da vida da qual ela deriva ou que ela determina.

O que nos incita a distinguir entre o que pertence à estrutura e o que pertence ao acontecimento é a natureza dos fatos

Noção de transformação e de estrutura relação estreita

p.26 Radcliffe-Brown e estrutura noção inspirada nas idéias de Spencer e Montesquieu. Maneira durável pela qual os indivíduos e os grupos estão ligados ao corpo social. Estrutura pertence à ordem do fato, dada na observação de cada sociedade particular

Crítica: não se pode mais aceitar estrutura como arranjo de algumas partes.

Condições de um arranjo que é estruturado:

· ser um sistema regido por coesão interna

· esta coesão, inacessível à observação do arranjo isolado, revela-se no estudos das transformações, graças às quais encontram-se propriedades similares em sistemas diferentes

Signos e símbolos não podem desempenhar seu papel senão na medida em que pertencem a sistemas regidos por leis internas de implicação e exclusão, e porque a característica de um sistema de símbolos é ser traduzível na linguagem de outro sistema com ajuda de substituições.

Proibição do incesto fundamento da sociedade humana na medida em que é essa a razão pela qual são fundados os primeiros grupos que se podem dizer verdadeiramente sociais: quando irmãs e filhas são projetadas para fora do grupo consangüíneo e atribuem-lhes maridos de outros grupos, e com seus grupos formam-se relações de aliança.

p.27 A descoberta dessa invariável não se deu por método indutivo. Mas sim através do estabelecimento do parentesco e das regras do casamento como sistema e na elaboração de um sistema dos sistemas para colocá-los perante uns aos outros numa relação de transformação. Sistema de parentesco e regras de casamento: enunciado impondo por todas as maneiras possíveis a instauração e a manutenção da reciprocidade.

p.28 Método: elaborar uma linguagem, cujo único mérito seria ser coerente como toda linguagem, e definir, por um pequeno número de regras, fenômenos tidos como diferentes

p.32 Problema da invariância ou universalidade da natureza humana

Crítica aos estruturalistas: que viram as costas para a natureza humana quando, ao tirar suas invariantes, substituem dados da experiência pode modelos sobre os quais se entregam a operações abstratas.

Resposta: estruturalistas só retomam programa de Durkheim e Mauss. O primeiro não excluía possibilidade de um terreno comum à psicologia individual e à sociologia, que competiriam ao terreno da lógica abstrata.

Lévy-Bruhl: estaria próximo do programa se não tivesse relegado as representações míticas à antecâmara da lógica e depois houvesse renunciado à noção de pensamento pré-lógico.

p.33 Mauss: permaneceu mais fiel ao pensamento de Durkheim procurando o que há de comum nos homens. Etnologia para ele, antes de tudo, um modo original de conhecimento do que uma fonte de conhecimentos particulares. Porque predileção por sociedades primitivas?

- atitude filosófica. pesquisa de campo é mãe e ama da dúvida. Etnologia tem método estritamente filosófico e por isso se distingue da sociologia. Enquanto uma objetiviza por medo de ser enganado, o antropólogo não sente esse medo, pois sociedade distante nada representa para ele.

p.34 perigo de se escolher sujeito e objeto radicalmente distantes: que conhecimento do objeto não atinja suas propriedades intrínsecas, mas que limite a posição relativa e extremamente cambiante do sujeito com relação a ele.

Como saber que o antropólogo não quer apenas interpretar sob novos moldes os costumes e instituições indígenas, para melhor enquadrá-las na teoria do momento? – Gosto pelo obsceno e pelo grotesco é como a doença infantil da ciência. Esse gosto leva a se constituírem teorias “para nós” e não “em si”.

p.35 Posição de observados nos traz garantias inesperadas de objetividade. Porque essas sociedades estão afastadas é que podemos nelas atingir “fatos de funcionamento geral” e que tem a vantagem de serem mais universais e de possuírem mais realidade. – observação privilegiada, porque distante.

p.36 Sociedades primitivas: parecem ter elaborado ou retido sabedoria particular, que as incita a resistir a qualquer modificação em sua estrutura, a preservar o seu ser. Além disso, possuem várias outras características econômicas, políticas e culturais que as tornam sociedades frias – porque seu meio interno está próximo a zero de temperatura histórica, possuem modo restrito e mecânico de funcionamento.

Sociedades após revolução neolítica: diferenciações entre castas e classes são solicitadas sem trégua, utilização de desvios diferenciais – sociedades quentes.

p.37 Distinção entre sociedades quentes e frias é sobretudo teórica. Além disso, nenhuma sociedade apresenta apenas um aspecto puro. Sobre as sociedades quentes é preciso dizer que, após a revolução neolítica, algumas sociedades utilizavam os desvios diferenciais entre homens – alguns dominantes, outro dominados – para produzir cultura num ritmo acelerado. A revolução mecânica do século XIX foi esboço impuro de solução distinta: tornou possível a transferência à cultura desta função dinâmica que a revolução proto-histórica havia reservado à sociedade.

“Passagem do governo do homem à administração das coisas” antecipa distinção antropológica entre cultura e sociedade. Passagem de um tipo de civilização que inaugurou uma evolução histórica ao preço da transformação dos homens em máquina, a uma civilização ideal que consistiria em transformar as máquinas em homens. Cultura passaria a fabricar o progresso e não mais seria necessário escravizar o homem. Sociedade então assumiria estrutura cristalina, regular, fora e acima das história, como as sociedades primitivas.

Antropologia Estrutural I.

Capítulo I - Introdução: História e Etnologia

p.13 Hauser e Simiand - primeiras distinções entre história e sociologia: caráter monográfico e funcional do método histórico e caráter comparativo do método sociológicos.

Etnologia e etnografia como ramos da sociologia. Transposição do debate tradicional ao seio da etnologia em seu conjunto (e história, em seu conjunto).

p.14 paradoxo suplementar: tese dos historiadores se encontra retomada textualmente, entre os etnológicos, exatamente pelos mesmos que se proclamam adversários do método histórico. Causa: origem da etnografia.

Renúncia ao termo sociologia que não conseguiu merecer o sentido geral de corpus, como pretendiam Durkhiem e Simiand. Causa: sociologia enquanto reflexão acerca dos princípios da vida social e das idéias que os homens mantêm ou mantiveram a esse respeito (visão européia), se reduz à filosofia social e permanece estranha ao estudo. Enquanto conjunto de pesquisas positivas relativas à organização e funcionamento das sociedades do tipo mais complexo (visão anglo-saxã), tende a ser uma especialidade da etnografia – entretanto, etnografi oferece um valor tópico maior (por causa do tipo de sociedade – não complexa – que estuda).

Etnografia: consiste na observação e análise de grupos humanos considerados nas suas particularidades e visando à reconstituição da vida de cada um deles. Geralmente toma o mesmo sentido em todos os países.

Etnologia: utiliza de modo comparativo os documentos apresentados pelo etnógrafo. Corresponderia ao que se chama, nos países anglo-saxões, de antropologia social e cultural.

Ambas correspondem a duas etapas de uma mesma pesquisa, que termina, enfim, em modelos mecânicos. Enquanto a História termina em modelos estatísticos.

p.15 Antropologia social: estudo das instituições como sistemas de representações

Antropologia cultural: estudo das técnicas e, eventualmente, também das instituições, consideradas como técnicas ao serviço da vida social.

Conflito Etnologia e História é também drama interior das ciências etnológicas:

- ou etnologia se vincula à dimensão diacrônica dos fenômenos, e se torna capaz de traçar-lhes a história; tentar reconstituir um passado do qual se é impotente para atingir a história

- ou etnografia procura trabalhar à maneira do historiador, e a dimensão do tempo lhes escapa. Querer fazer história de um presente sem passado .

Oposição clássica evolucionismo x difusionismo.

p.16 Crítica ao evolucionismo. Em etnologia, o evolucionismo é repercussão direta do evolucionismo biológico. Grupos primitivos são sobrevivências de etapas anteriores. Entretanto, uma escolha ilimitada de critérios de evolução permitiria a construção de um número ilimitado de séries.

Crítica ao difusionismo. Retalhe de culturas em elementos isoláveis por abstração e estabelecer (não mais entre culturas) entre elementos do mesmo tipo relações de filiação e diferenciação progressiva. Distribuição geográfica desses objetos e sua transmissão de região a região deve ser estudada como naturalistas estudam distribuição de animais e vegetais. Perigo: a validade histórica das reconstruções do naturalista é garantida pelo vínculo biológico da reprodução, enquanto entre dois utensílios diferentes, mas de forma parecida haverá sempre uma descontinuidade, que provém do fato de que um não resulta do outro, mas cada qual resulta de um sistema de representações.

p.18-19 Crítica ao evolucionismo e difusionismo. Não nos ensinam nada acerca dos processos conscientes e inconscientes, traduzidos em experiências concretas, individuais e coletivas, pelas quais homens que não possuía uma instituição chegaram a construí-la, quer por transformação de outras instituições, quer por tê-la recebido de fora. Esses objetivos essenciais de pesquisa seriam identidade entre história e etnografia.

p.18 Evolucionismo e difusionismo x método histórico. Este estuda sempre indivíduos, quer sejam pessoas ou acontecimentos, ou grupos de fenômenos individualizados por sua posição no espaço e no tempo. O difusionista – quebra espécies do comparatista para tentar reconstituir indivíduos com fragmentos emprestados de categorias diferentes: construção de um pseudo-indivíduo, não confere unidade real ao objeto. Tanto os “ciclos” do difusionista quanto os “ estágios” do evolucionista, são fruto de uma abstração à qual faltará sempre a corroboração de testemunhas. História de ambas as correntes é sempre conjetural e ideológica.

p.19 Boas e seu método.

- limitações: tudo que etnólogos elaboram sobre história dos povos primitivos são reconstruções. Não se dispõem de nenhum fato que lance luz sobre desenvolvimentos das histórias dos povos primitivos

- método frutífero: estudo detalhado dos costumes, e de seu lugar na cultura global de quem o pratica, acrescido de um inquérito sobre a repartição geográfica de outras tribos, permite determinar (até certo ponto): 1. causas históricas que conduziram à sua formação 2. processos psíquicos que os tornaram possíveis. Pesquisa deve restringir-se a pequena região e comparações não devem se estender demais. Não se obtém jamais certeza cronológica, somente se pode atingir altas probabilidades.

p.20 Crítica à teoria das sobrevivências. Seria necessário provas que um dos tipos é mais primitivo que o outro; que o tipo primitivo evolui necessariamente para outra forma; que a lei opera mais rigorosamente no centro de uma região do que na sua periferia. Tripla e impossível determinação.

p.21 Contra as pretensas leis universais do desenvolvimento humanos, Boas opõe uma análise crítica que, se levada ao extremo, conduziria a um agnosticismo histórico completo.

Etnologia e História. As provas de mudança só podem ser obtidas por métodos indiretos, como uma filologia comparada, análise de fenômenos estáticos e um estudo da sua distribuição. Para saber a história, não basta saber como são as coisas, mas como chegaram a ser o que são. Cada agrupamento humano é uma singularidade.

p.22 ritmo do pensamento de Boas. Atribui às pesquisas etnológicas um objeto científico e de alcance universal (determinou que problema era determinar relações entre caráter objetivo e subjetivo do homem).

caráter paradoxal de Boas. Quando tentava aplicar métodos rigorosos das ciências naturais no caráter subjetivo, reconhecia a infinidade de processos históricos pelos quais ele se constitui em cada grupo, ficando assim a histórica fora de alcance. Assim, quando tenta atingir a história, acaba constituindo uma micro-história, ao invés da macro-história dos evolucionistas e dos difusionistas

p.23 reação de Malinowski e da Escola Americana. Renúncia a compreender a história e fazer do estudo das culturas, uma análise sincrônica das relações entre seus elementos constitutivos, no presente. Mas, será possível conhecer profundamente uma cultura, sem conhecer seu desenvolvimento histórico?

p.24 Organizações dualistas

- interpretação evolucionista: estado necessário do desenvolvimento da sociedade, determinação de uma forma simples cujas formas observadas seriam sobrevivências e vestígios e depois postular presença antiga dessa forma entre povos que nada atesta terem sido organizações dualistas,

- interpretação difusionista: escolha de um dos tipos observados (mais rico e complexo), como representando a forma primitiva da instituição, e consignará sua origem à região do mundo em que se encontra melhor representado, considerando todas as formas como resultado de migrações.

* em comum, os dois têm o fato de designar arbitrariamente um tipo, transformá-lo em modelo e, por um método especulativo, reduzir todos os outros.

- nominalismo boasiano: estudar cada caso observado do mesmo modo que indivíduos. Funções atribuídas à essa organização não coincidiria e história de cada grupo social mostra que a divisão em metades provém de origens diversas.

* seremos conduzidos a despedaçar a noção de organização dualista, como constituindo falsa categoria e, estendendo esse raciocínio, negar as instituições em benefício exclusivo das sociedades

p.25 Crítica os funcionalistas.

1. ou proclamam que todo estudo etnográfico deve proceder de estudo sincrônico detalhado e fazem o que Boas recomendara fazer, assim como a Escola Francesa. 2. ou encontrar a salvação e fechar os olhos a toda informação histórica relativa à sociedade considerada, e a todo método comparativo emprestado de outras sociedades, assim encontrando verdades gerais (possibilidade que Boas jamais negou) – essa foi a opção de Malinowski, que encontrou verdades eternas sobre a natureza e a função das instituições sociais.

p.26 Trabalhar sobre uma única sociedade por resultar em monografias preciosas, mas nos limitamos a concluir apenas sobre essa sociedade. E, quando nos limitamos aos instante presente da vida de uma sociedade, somos vítimas de ilusão, pois tudo é história. Somente a história e seu desenvolvimento podem sopesar e avaliar os elementos do presente. MUITO POUCA HISTÓRIA VALE MAIS DO QUE NENHUMA HISTÓRIA.

p.27 Função primária e função secundária. Primeira corresponde a uma necessidade atual do organismo social, a segunda, se mantém apenas por causa da resistência do tempo em renunciar a um hábito.

Crítica ao funcionalismo. dizer que uma sociedade funciona é truísmo; mas, dizer que TUDO, numa sociedade, funciona é absurdo (perigo que Boas já previa com relação ao funcionalismo).

Biólogo e psicólogo: estudam caracteres universais. Etnógrafo: descreve e analisa as diferenças que aparecem na maneira pela qual se manifestam nas diversas sociedades. Etnólogo: explica essas diferenças. O que interessa a ele não é a universalidade da função, e sim que os costumes sejam tão variáveis.

p.28 Uma disciplina cujo objetivo é analisar e interpretar as diferenças não deve se poupar com as semelhanças. Mas, ao mesmo tempo, perde o meio de distinguir o geral, ao qual pretende, do banal, com o qual se contenta.

p.30 Malinowski: mistura de dogmatismo e empirismo que contamina todo o seu sistema. Elemento também presente em Margaret Mead – simplificação e apriorismo.

p.31 Construções apressadas: como Boas percebera, superestima do método histórico, mais do que uma atitude contrária (visto que foram historiadores que formularam esse método)

p. 32 a crítica das interpretações evolucionista e difusionista nos mostrou que, quando o etnólogo acredita fazer história, faz o contrário da história; e é quando imagina não fazê-la que se conduzcomo um bom historiador, que estaria limitado pela mesma insuficiência de documentos.

p.32 similitudes etnógrafia e história.

-ambos estudam sociedades que são outras que não aquela onde vivemos.

-lidam com sistemas de representação que diferem para cada membro do grupo estudado e, em conjunto, das representações do investigador

- alargam a experiência particular às dimensões de uma experiência geral ou mais geral, e que se torne, por isso, acessível enquanto experiência.

-condições: simpatia, rigor, exercício e objetividade.

p. 33 pesquisas etnológicas e história

etnógrafo:alguém que recolhe fatos e os apresenta em conformidade com exigências do historiador. coleta e organização de documentos.

historiador: utilizar estes trabalhos, quando observações distribuídas num período de tempo suficiente lhe permitem. coleta e organização de documentos.

etnólogo: quando observações de um mesmo tipo, referentes a um número suficiente de regiões diferentes, lhe possibilitam isso. Estudo de modelos construídos a partir e por meio desses documentos.

similitudes etnologia e história diferenças não são nem de método, nem de objetivo, nem de objeto. têm o mesmo objeto (vida social); mesmo objetivo (compreensão melhor do homem); método varia apenas na dosagem dos processos de pesquisa, se distinguem pela escolha de perspectivas complementares: história organizando dados em relação às expressões conscientes e etnologia em relação às condições inconscientes da vida social.

p.35 Boas e natureza inconsciente dos fenômenos . assimila-os também à linguagem, mostrando como a estrutura da língua permanece desconhecida até o surgimento das gramáticas científicas e que, mesmo então, ela continua a modelar o discurso fora da consciência do sujeito, impondo ao seu pensamento quadros conceituais que são tomados por categorias objetivas. Existe diferença de grau entre fenômenos inconscientes e culturais, mas também identidade profunda.

p.36 Boas, entretanto, não chegou a utilizar esses métodos lingüísticos em função da etnologia. Sem dúvida, se proíbe de reter racionalizações secundárias e reinterpretações comuns à etnografia de Malinowski; mas continua a utilizar categorias do pensamento individual e consegue apenas descarna-lo de suas ressonâncias humanas. Restringe a extensão das categorias que compara mas não as constitui em um outro plano, proibindo-se comparar.

Legitimidade da comparação lingüística comparação que é mais que um fracionamento: é uma análise real. Das palavras o lingüista extrai a realidade fonética do fonema, deste, a realidade lógica dos elementos diferenciais. E, quando em várias línguas, reconheceu a presença dos mesmos fonemas ou o emprego dos mesmos pares de oposição, ele não compara seres individualmente entre si: é o mesmo fonema, o mesmo elemento, que garantem este novo plano de identidade. Não se trata de dois fenômenos semelhantes, mas de um único. A passagem do consciente a inconsciente é acompanhada de um progresso do especial para o geral

p.37 semelhanças etnologia e lingüística não é a comparação que fundamenta generalização, mas o contrário e também em como chegar à estrutura inconsciente.

A atividade do inconsciente do espírito consiste em impor formas a um conteúdo e formas são fundamentalmente as mesmas em todos os espíritos, é preciso notar que basta atingir a estrutura inconsciente, subjacente a cada instituição ou a cada costume, para obter um princípio de interpretação válida para outras instituições e costumes.

Importância das análises sincrônicas mostrando como as instituições se transformam, esta análise pode destacar a estrutura subjacente a formulações múltiplas e permanente através de um sucessão de acontecimentos. aqui haveria alguma relação com as críticas que o Weber faz à utilização de certos conceitos, ao marxismo quando passa de um ótimo fabricante de idéias para um dogmatismo?

p.38 Organizações dualistas desde perspectiva estruturalista análise de cada sociedade para encontrar, por trás do caos das regras e dos costumes, um esquema único, presente e agindo nos contextos locais e temporais diferentes. dúvida: isso que o Lévi-Strauss propõe não é apenas ma maneira de de fazer o que critica só que a um nível inconsciente? como se a única coisa que pudesse ser igual a todos é algo que não pode ser visto, mas que está por trás do que todo mundo faz? não estou sabendo localizar bem qual método se parece com o que ele ta fazendo, mas parece bem similar, em termos formais a outros método, só que o denominador comum (o conteúdo daquilo que está nessa forma) é o inconsciente. Talvez a reposta seja que essa constância é achada nas relações e não em caracteres/termos.

Este esquema não corresponde nem a um modelo particular, nem ao agrupamento arbitrário de caracteres comuns a diversas formas. Ele se reduz a algumas relações de correlação e oposição, sem dúvida inconscientes e, por isso mesmo, devem estar presentes mesmo entre aqueles que não conhecem esta instituição.

p.39 Organização Dualista possui três elementos estruturais:

1. exigência de regra

2. noção de reciprocidade, que permite integrar oposição do eu e do outro

3. caráter sintético do dom

Finalidade da etnologia não pode permanecer indiferente aos processos históricos expressões conscientes dos fenômenos culturais, mas, se ela lhes dá mesma atenção que o historiador e pra eliminar tudo ao acontecimento e à reflexão. Sua função é atingir um inventário de possibilidades inconscientes, que existem em número limitado e cujo repertório e relações de compatibilidade e incompatibilidade que cada uma mantém com as outras fornecem uma arquitetura lógica a desenvolvimentos históricos imprevisíveis.

Marx “Os homens fazem sua própria história, mas não sabem que a fazem” – segundo termo justifica a etnologia.

História não ignora elementos inconscientes da vida social, mas deve ignora-los na medida em que tentam reunir e explicar o que se manifestou aos homens como consequências de suas representações ou atos. História política (racionalizações secundárias e reinterpretações) e história econômica (história das operações inconscientes – impregnado de etnologia)

p.40 semelhanças etnologia e história deslocamento que efetuam aparecem de modos diferentes, mas o procedimento é o mesmo: do explícito para o implícito (historiadores) do particular ao geral (etnólogo)

diferenças etnologia e história se o percurso é o mesmo, a orientação é diferente: etnólogo caminha pra frente procurando atingir através do consciente, o consciente para o qual se dirige; ao passo que o historiador avança recuando, conservando os olhos fixados nas atividades concretas e particulares, das quais se afasta somente para considera-las sob perspectiva mais rica e completa.